quinta-feira, 16 de março de 2017

GRAMA

1
Os poemas não esperam
o último toque, o derradeiro
bilhete do ônibus, o fiapo
podre da toalha molhada,
da lembrança. 
os poemas
não esperam, 
já estão,
antes, forrando o estômago
com uma grama amarga,
programados 
para doer.

2
Poemas nunca caducam,
pois não esperam. a própria
intenção segura o sangue
da fera, o peso inflado
de nada é um pavor
empanado. poemas não
anunciados assoviam
o silêncio e não cabem
no mundo, são mais reais,
por isso não sucumbem.


3
O poema, aquilo que
ainda é quisto, matéria
mole e mágica dos sonhos,
dos tombos que atravessei,
o poema, parte trágica
do intestino, carne intrusa
nos meus olhos, permanente
solidão, 
solda impossível,
não escrevo, e o que dele,
líquido, fica, este caldo 
lânguido e ralo, não chega
muito bem para nós dois.


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