& é impossível explicar que não me chamo Tempo
eu digo então que você me culpa como se me perdesse
& sei que eu me culpo como se te ganhasse
todos os dias
na mordida amarela das manhãs
vamos viajar
juntar nossas trevas em uma só travessa
& atravessar o estado de São Paulo onde há dois
meses não chove e observar a fome dos bois
vamos pensar que não precisamos de água
vamos endurecer nossa pele leve & odiosa
vamos cantar a secura das calhas
vamos tremer de sede até que a minha
ou a sua boca caia para que você ou eu
tenha que apanhá-la entre a poeira dos sapatos
eu faço o que você sempre quis
algo como olhar nos olhos dos animais mortos
na beira das estradas & plantar uma fome
ancestral nas entranhas do estômago
eu disse à minha analista que você nunca coube
no tamanho da minha ficção
mas estávamos apenas regulados do avesso & tristes dos olhos
você sempre soube
eu faço o que você sempre quis
como é mesmo? pendurar as palavras
te encontrar no silêncio depois & antes de mim
onde você não é você
& nós dois somos tudo & não somos nada
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