domingo, 4 de dezembro de 2016

BICHO NA URBE

I

dentro da cidade, como um dado
que derrete sobre o calor do concreto,
aquele homem, os úmidos pelos das pernas
aderindo à calça velha, a lembrança
tremendo nos lábios


e certo do tamanho
desta tarde, da tragédia

desta tarde, da dureza
deste asfalto, do asfalto
desta falta, caminha,
tonto, entre as linhas
imaginárias dos trópicos,


sob o brilho escondido
das estrelas, dentro da melhor
cidade da américa do sul 


II

por onde 
ir? pergunta 

ao próprio corpo,
onde deitar para não


doer? [a certeza-soco
da existência, este cisto 


encravado na retina,
no meio do caminho]


por onde poder partir
para além da ruína?

III

veículos, cães, o seco
vapor das palavras ditas
em português do brasil


e tudo por todos
os lados, produtos
das bocas desta brasa 


quente como é muito quente
uma merda fresca, um cu 

dissolvido em suor [não

eu nunca quis perder
os pontos de chegada,
eu nunca quis saber
que não existe nada


de repente, um tiro,
um salto, um espanto,

e o mundo entorta,
e a língua corta 
o fio de seus verbos

devo andar? apenas
perfumar a pele
com a fome de
uma faca? a vida


não vale este estrume
sob o meu sapato
a morte não vale
este sapato, meus pés
sobre o mole da merda


repito: VIDA
meus dentes estranham

o som da palavra
a ponte espantada

a vida, a vida,
não vale um cascalho
destas avenidas]


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