I
dentro da cidade, como um dado
que derrete sobre o calor do concreto,
aquele homem, os úmidos pelos das pernas
aderindo à calça velha, a lembrança
tremendo nos lábios
e certo do tamanho
desta tarde, da tragédia
desta tarde, da dureza
deste asfalto, do asfalto
desta falta, caminha,
tonto, entre as linhas
imaginárias dos trópicos,
sob o brilho escondido
das estrelas, dentro da melhor
cidade da américa do sul
II
por onde
ir? pergunta
ao próprio corpo,
onde deitar para não
doer? [a certeza-soco
da existência, este cisto
encravado na retina,
no meio do caminho]
por onde poder partir
para além da ruína?
III
veículos, cães, o seco
vapor das palavras ditas
em português do brasil
e tudo por todos
os lados, produtos
das bocas desta brasa
quente como é muito quente
uma merda fresca, um cu
dissolvido em suor [não
eu nunca quis perder
os pontos de chegada,
eu nunca quis saber
que não existe nada
de repente, um tiro,
um salto, um espanto,
e o mundo entorta,
e a língua corta
o fio de seus verbos
devo andar? apenas
perfumar a pele
com a fome de
uma faca? a vida
não vale este estrume
sob o meu sapato
a morte não vale
este sapato, meus pés
sobre o mole da merda
repito: VIDA
meus dentes estranham
o som da palavra
a ponte espantada
a vida, a vida,
não vale um cascalho
destas avenidas]
domingo, 4 de dezembro de 2016
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