I
Meu
medo maior é não conseguir deixar de te procurar, ela disse, viro a cidade
pelo avesso e sinto o teu tato em cada concreto trincado, em cada pedaço de
pessoa que esbarra em meus ombros; nós dois na sarjeta turva do acaso após
todos esses anos e eu com as bolas dos olhos envidraçadas imaginando que seu
corpo era todo composto por células novas; meu medo, Pê (de seus lábios, o
monossílabo de sempre, e estávamos, de repente, nós dois dividindo a bebida
menos amarga que podíamos comprar com aqueles trocados; "Pê", e pela
força velada com que ela pronunciou minha consoante, percebi que suas cordas
vocais eram as mesmas de quando nos abraçamos depois daquele funeral), é que
esta dor vire metástase e se infiltre em cada osso, em cada copo quente de
cerveja, em cada cigarro que eu já não consigo terminar, como amolecer a
matéria trágica do teu fantasma se quando a chuva estoura sobre a tarde o teu
corpo ainda é mármore moldado em meus olhos? me embala em seu colo, Pê, então
me lembrei daquela tarde; como se o nosso tempo de plantar flores já não houvesse
passado, é o que eu gostaria de ter respondido, era um absurdo, eu não
entendia, não entendia, antes, ela sempre vilipendiava minhas violáceas, regava
com pulgões as minhas palavras, mas apenas perguntei desde quando você fuma?
II
Vai
ficar tudo bem, sabendo que nunca, eu repetia, como se fosse possível reger a
música infeliz da má sorte, vai ficar tudo bem, sabendo que, depois daquilo, ela
me quereria para sempre ou nunca mais haveria de me beijar o sexo; e eram
longas as luas que inventávamos sob os lençóis naquelas tardes quentes do
interior, quando ela me ligava logo após os pés de José virarem a esquina, mas,
ali, agora, a três metros da tragédia, era como se a presença palpável do sol
descortinasse, na frente de todos, o nosso desejo.
III
Pê,
empurre a porta, nunca muito mais do que isso, eu a entendia apenas pelo cheiro
do corpo, quando possível, pois era neutro o seu tom de voz; eu, viril,
empurrava a porta sempre com força, mas, dentro, tremia descalço sobre os
tapetes rosados, vacilava os olhos sobre a louça honesta da cozinha, e
atravessava como um pássaro leve e branco cada um dos lugares, mas não naquele
dia; depois da tempestade, despi na soleira da porta os meus panos encharcados,
ela, nua e quente dentro do quarto, não sabia, mas meus pés e mãos eram de
úmida lama; e, assim, entrei, reconfigurando os lugares da casa, devolvendo o
marasmo à imundície, que está antes de todas as coisas, tingindo de terra a
limpeza daqueles tapetes, daquelas paredes, dos claros azulejos que me levavam
até o quarto maior, o quarto de José, e foi ali, naquela concha limpa e sacra, onde
o homem talvez nunca houvesse gozado, em meio àquela ordem perturbada apenas
por uma gaveta aberta na última fileira do guarda-roupa, que eu, rapinante, coberto
de lama e galhos até a ponta do pau, atravessei seu corpo; me embala em seu
colo, Pê, me embala em seu colo, e na hora eu não percebi que era um verso
escapado da boca de uma criança, justamente dela, tão completa sem palavra
nenhuma, talhada, o corpo todo, no rigor do silêncio.
IV
Com
sua mãe morta no brotar do parto, dizem, José, o tio, carregou, desde sempre, o
calo incômodo da criação. Sempre os dois, por todos os lados da pequena cidade,
por todos os cômodos daquela casa, eu sabia, imaginava, inventava, quando os
via passear na praça aos domingos pela manhã, de mãos dadas, os olhos dela
completos de silêncio, os olhos de soldado de José; na rua, éramos todos
estranhos conhecidos, por isso me escondia atrás de escombros e veículos, entre
as moitas brilhando de orvalho, para evitar os indelicados encontros, por
vezes, errava o cálculo e os cumprimentava, bom dia, seu José, como foi a
missa?, ela tinha os olhos fixos de sempre, ótima, como de costume, Pedro, e por
onde anda sua mãe?, ele perguntava sempre, e eu ia afagando essas ofensas,
pensando em minha mãe apodrecendo em uma cadeira de rodas, sentimos todos muita
falta, mande lembranças.
V
Como
era a voz de minha mãe? me lembro mal de seus grunhidos, dos únicos sons que
ela fazia com dificuldade durante os anos todos em que esperou a morte; meu
pai, um homem estranho, sempre melancólico e triste, quando me viu crescido,
desapareceu no meio de uma madrugada, sem nunca responder à minha pergunta, era
impossível; tive, então, de assumir os cuidados daquele corpo que não sentia
meus toques e não respondia a minha voz, dentro do mais absoluto silêncio.
VI
...
e eu chupava como uma bala a ponta de seus dedos, os pés, as mãos, ignorando, a
princípio, a flor que havia sido aberta, misturando meu corpo imundo e úmido,
na cama, ao cheiro duro do outro homem; afague os meus cabelos com seus olhos,
me coma por trás com esse pau de lama, eu ouvia como se me afogasse dentro de
um sonho com aqueles nenúfares, Pê, e você pronunciava com fome o meu nome, me
embala em seu colo, e eu não sabia por onde levar meu corpo de terra, e eu
sentia vontade de derrubar a casa, de estarmos nós dois debaixo da tempestade,
em meio aos escombros daquela vida, entre as pedras e os bichos do chão, mas,
antes do gozo, ainda duro, eu a embalei em meu colo. Eu estava afagando os seus
cabelos com os olhos fechados quando a porta se abriu, e eu vi, antes do corpo
enorme daquele homem entrar no quarto, minha roupa encharcada e imunda em suas
mãos manchadas de vermelho, ela levantou a cabeça, já sentia o peso do homem no
quarto, Pai?, por favor, não, para com isso, meu Pai.
Chovia,
mas Pe. José não falhava, a fé não pode esperar. Disse que demoraria aquele
dia, que tinha muito o que resolver com os acólitos da paróquia, e vestiu, com
paciência, sua roupa comum, a camisa de algodão branca e gigantesca, a calça
jeans de sempre e seus sapatos cuidadosamente engraxados. Beijou, com muito
amor, o rosto da filha, foi até a porta e viu Pedro, aos trapos, atrás de um
carro estacionado do outro lado da rua. Deu meia volta, avisou à filha que
havia esquecido o terço de estimação, foi até seu quarto, abriu a última gaveta
da última fileira de seu guarda-roupa e pegou o revólver. Pálido, sabia o que
fazer, saiu de casa decidido a colocar um fim nessa história. Parou o carro em
frente à casa de Madalena (será que alguém soube, além de seu marido covarde?),
não seria nada difícil, já que a mulher não podia correr ou gritar. Um único
tiro na cara, e Madalena morreu sem saber que morria. Pe. José, tocando o rosto
ensanguentado do único verdadeiro amor de sua vida, encomendou Madalena. Com as
mãos sujas, abriu a porta do carro, sentou, dirigiu em alta velocidade de volta
à casa, e encontrou a porta aberta, do jeito que imaginara, e as roupas velhas
e sujas na entrada da sala. Pe. José, como se fosse rezar uma missa, entrou,
seguiu os passos de lama que cruzavam o chão, e chegou, enfim, na porta de seu
quarto. E a abriu, entrando sem grande estardalhaço, chacoalhando as roupas de
Pedro manchadas com o sangue de sua mãe, de olhos fechados, sem coragem de ver
o que acontecia ali, e estourou a própria cabeça.
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