quinta-feira, 5 de novembro de 2015

retrato

não há nada novo
sob o céu cinzento

não há nada vivo
entre as nossas cinzas

não há nenhum grito
que estanque o silêncio 

que ecoa e perfura
a pele dos pretos 

não há - nunca houve -
os olhos olhando 

apenas olhando
acesos de imagens 

as armas fechadas
as fardas fadadas 

ao esquecimento 
guardadas num canto

não há nada vivo
correndo nas veias

de quem tira a vida
dos últimos índios 

de quem se traveste
de homem ou deus 

e persegue e mata
gays e travestis 

não há nada novo
sobre as nossas mãos:

as cinzas já frias
os olhos de mármore 

o sangue pingando
de todos os lados 

os dedos em riste 
de quem cala e assiste


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