agora, enfim estacionado no banco sem encosto da sala, penso na frágil delicadeza, na faísca que me mantém vivo. a torneira pingando sobre a louça encarnada de sete dias. paro, completamente pálido. há treze minutos, atravessei o cruzamento como se atravessasse o quintal de minha infância, como se a cidade fosse minha própria obra de fantasia, minha fábula, meus fantoches. não olhei para os lados, pus as palmas das mãos sobre as orelhas para não escutar, e, mais uma vez, me senti feliz por ter a vantagem de saber que não existe vantagem. continuar vivo ou cavar a própria vala? tudo e nada vale. por isso, todos os dias (que são os mesmos, como hoje) entrego a agonia da minha vida aos braços do acaso, aos carros das minhas avenidas. atravesso, descalço, o lagarto cinza; meus pés provando na carne a carne do sol, a queimadura madurando nos dedos, e a travessia, no entanto, um pedaço apenas, um lance, uma cena que assino embaixo, assim como assino embaixo cada sacada que abre sua boca quando passo. finalmente, agora, os livros espalhados pelo quarto, pelo banheiro, pela sala, acumulam centímetros insaciáveis de poeira, finalmente, alguém não dá a mínima, e eu pouco me fodo, apesar da dor em minhas costas comer o resto do corpo, alguém volta à casa, a água continua, a crosta dos pratos vai amolecendo.
terça-feira, 8 de novembro de 2016
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Sem ter um rei
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eu vi ali no chão da encruzilhada a voz brotar do vão iluminada eu vi ali no chão da encruza clara o sol da escuridão na minha cara a...
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