sábado, 19 de novembro de 2016

“Perdoando Deus”: alguma reflexão sobre a náusea e o absurdo em Clarice Lispector

Neste trabalho temos como objetivo tecer uma breve análise do conto “Perdoando Deus”, de Clarice Lispector, a partir das reflexões de Albert Camus sobre o absurdo em “O Mito de Sísifo” (1961), que se inserem no contexto filosófico do existencialismo. Para isso, nos ateremos ao texto literário e aos seus percursos linguísticos, que, de alguma forma, prefiguram a temática do absurdo. Benedito Nunes, em seu texto “A náusea”, nos diz que “a concepção-do-mundo de Clarice Lispector tem marcantes afinidades com a filosofia da existência” (NUNES, 1969, p. 94), e, a partir dessa afirmação, nos mostra como algumas personagens de Clarice, como Ana, do conto “Amor”, vivenciam a experiência da náusea. É-nos, então, possível, procurar no universo de “Perdoando Deus” experiência semelhante.
O narrador-personagem, que enuncia uma voz feminina e conta os acontecimentos a partir de um tempo posterior à história narrada, começa a narrativa nos contando sobre eventos possivelmente banais: “Eu ia andando pela Avenida Copacabana e olhava distraída edifícios, nesga de mar, pessoas, sem pensar em nada.” O que podemos deduzir, logo no início do primeiro parágrafo, é que a história se passa em um dia comum e em um lugar comum. No decorrer do parágrafo, a personagem nos diz que, “percebendo as coisas” que a cercavam, “estava sendo uma coisa muito rara: livre”. E é assim que, “satisfeita com o que via”, no segundo parágrafo a personagem se sente como “a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo.”
No terceiro parágrafo, há, porém, o acontecimento no qual se sustenta o conflito principal da narrativa: a personagem pisa em um enorme rato morto. Há aí uma epifania, presente em grande parte da obra de Clarice. A epifania se dá, no universo de Clarice Lispector, para desencadear conflitos psicológicos nas personagens, que, na maioria das vezes, passam por uma espécie de transformação interior. Depois de pisar no rato, a narrativa se volta completamente para o mundo psicológico da personagem. Percebemos, então, uma mudança significativa no próprio estilo de narrar.
Podemos, pois, subdividir a narração em duas partes. A primeira, até o segundo parágrafo, quando a personagem nos diz sobre o seu amor “ingênuo” e maternal pelo mundo, e a segunda, quando o rato morto entra em cena. Há, no terceiro parágrafo, uma mudança significativa do ritmo da narrativa, perceptível, por exemplo, pela repetição de “em menos de um segundo” duas vezes no mesmo período, o que nos permite sentir (e vivenciar) o pânico da personagem, que, “quase correndo de medo”, termina encostada em um poste já em outro quarteirão, com a imagem do rato morto colada às pálpebras. Do quarto parágrafo em diante, a velocidade da narração é suavizada, e a ação é posta de lado para dar lugar às reflexões psicológicas da personagem.
Esse percurso é estruturalmente semelhante ao da personagem Ana, do conto “Amor”. Voltando para casa de bonde, após um dia comum de compras, a personagem vê pela janela um cego mascando chicles, e “o mundo se tornara de novo um mal-estar”. No Jardim Botânico, cercada pela inumanidade da natureza, Ana contempla o Absurdo, o “divórcio entre o homem e a vida, entre o ator e o seu cenário” (CAMUS, 1961, p.16). É o divórcio entre o homem e Deus, entre o homem e o mundo que a personagem de “Perdoando Deus” contempla ao pisar em um rato morto. Benedito Nunes nos diz que “embora desencadeada [a náusea] pela contemplação de uma coisa em particular, a sua causa real é o mundo, a existência” (NUNES, 1969 p.96). Em outras palavras, o que está sendo dito é que a desarticulação do sujeito com o mundo é irremediavelmente uma condição humana. É dessa desarticulação, como reflete Camus, que brota o sentimento do absurdo. A partir da percepção dessa desarticulação surgem as reflexões psicológicas da personagem. Inicialmente há raiva e revolta contra Deus (o Mundo), que havia sido maternalmente amado anteriormente: “não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um rato”, a personagem lamenta. Ter amado o mundo e, sobretudo, ter “percebido” (do latim percipere, “notar, compreender completamente”, “pegar, agarrar com a mente”) o mundo para logo depois ter sido confrontada pela sua face mais crua e inapreensível foi o que desestabilizou a personagem: “eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato? A grosseria de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto.” No fim do quarto parágrafo, diz: “Em mim é que Ele não estava mais. Em mim é que eu não O via mais”. O Mundo (Se pensarmos em Deus como o Mundo, a partir do que o texto nos sugere, e como estamos fazendo ao longo deste trabalho) perde a sua aparente clarividência, de modo que já não é mais possível fazer parte dele. O Mundo e sua natureza fogem de qualquer compreensão, e é aí que se instala o absurdo, o “confronto desse irracionalismo e desse desejo desvairado de clareza, cujo apelo ressoa no mais profundo do homem.” (CAMUS, p.34)
No entanto, a partir do início do quinto parágrafo, quando a narrativa já se encaminha para o fim, e após a personagem pensar até em vingança contra Deus, inicia-se um processo de mea culpa, que se dá a partir de uma digressão sugerida pelo uso das reticências:

... mas quem sabe, foi porque o mundo também é rato, e eu tinha pensado que já estava pronta para o rato também. Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. 

A personagem de “Perdoando Deus” ama até o momento em que um rato morto não a permite compreender o Mundo. Ana, em “Amor”, ama aquele mundo que não entende, que não se deixa compreender, “amava o que fora criado — amava com nojo.” O Mundo, mesmo fugindo de sua compreensão, “era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante.” A personagem de “Perdoando Deus” percebe, então, que só poderá amar verdadeiramente o mundo quando amar também o rato (“É porque só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato na mão.”), quando amar esse mundo em sua totalidade e incompreensão, e admite: “É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é.” Camus nos diz que “o absurdo é uma paixão, a mais lancinante de todas”, e completa que “o problema está em saber se podemos viver com as nossas paixões, se podemos aceitar a sua lei profunda, que é a de queimar o coração que elas ao mesmo tempo exaltam.” (CAMUS, 1961, p.35) Nem Ana, nem a personagem anônima de “Perdoando Deus” são capazes de realizar a paixão do absurdo em sua totalidade. Ana chega mais perto, mas ao fim do conto volta para o controle do cotidiano: “E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração.” Ambas querem o conforto de um Mundo que não nos joga na cara seus ratos e seus cegos.
Mas é de “porquês” que se constrói o quinto e último parágrafo, de explicações que, conforme vão aparecendo, dão sentido ao título do conto. A personagem perdoa Deus e o Mundo, mas nós sabemos que a culpa mora somente dentro dela e que o Mundo não tem a menor culpa da sua (da nossa) condição. “Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza?” é uma das perguntas enigmáticas que aparecem ao fim do conto. A personagem reconhece que não conhece a si mesma, que talvez “não possa olhar o rato enquanto não olhar sem lividez esta minha alma que é apenas contida”, ou seja, que, enfim, não só o Mundo, mas ela também é o rato, ou melhor, nela também há o rato morto, o incompreensível que precisa ser amado.
A personagem diz (ou pensa): “eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu.” Percebe que “o jogo de sua vida maior” só se fará quando amar não somente o Mundo em sua incompreensão, mas admitir e reconhecer que ela mesma faz parte dessa existência nauseante e absurda. Só assim ela poderá não inventar um Deus que seja pura compreensão e bondade, mas sim ser ela própria Deus, parte e carne indistinta do Mundo.

Referências:
CAMUS, Albert. O mito de Sísifo: ensaio sobre o absurdo. Livros do Brasil, 1961.
NUNES, Benedito. A náusea. O Dorso do Tigre. Ensaios. São Paulo: Perspectiva, 1969.
LISPECTOR, Clarice. Felicidade clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1991.
LISPECTOR, Clarice. Laços de família. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

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