segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

renda

06

como posso ainda não me ter esquecido
do teu nome e do teu número
um pássaro morto às voltas de uma árvore morta
como após tanta estrada perceber que parei tão aqui
o suor dos meus sonhos e os quilômetros em nada
estou tão perto de você agora que de repente desaprendo a falar
a amarrar as pernas a permanecer de pé
ainda nesta poeira deste encontro seco naquele estacionamento
daquele país assustadoramente outro como posso?


06

este número de telefone não existe
o dia não tem fim
comam-me os mosquitos

07

risco o nome de Hilda Hilst no rosto do tempo
o sol esquenta a tempestade
para à noite Ariana preparar os aromas
me sinto vivo mesmo é quando escrevo
secretamente corpos no verão 

08

nem tudo está tão ruim aqui?
isto é tortura
estão cortando as linhas de contato
eu grito que te amo de dentro do meu travesseiro 

a saudade é o deserto que cai da minha boca 
você viaja para o teu novo país vizinho
sempre o mais longe que há de mim


09

estou tão sentimental 
tenho crises de alergia
estou misturando as memórias

você viajar é mágica para minha imaginação

09

vou ao mercado pela manhã
escolho legumes para o almoço
me arrependo das sacolas 

arrasto e arrisco a vida
tenho alguns amigos e um cachorro 

vou parar de fumar
frequento os rituais as festas
dou abraços sambo e beijo

tenho vinte e três anos
não me vejo jovem
escrevo porque sou isto

perdi a mão para a prosa
para a conversa normal dos lugares
para dar a mão às pessoas

não sei como cumprimentá-las 
camuflar-me na vida comum 
os versos são para que não me vejam 
os versos não são para nada 
as músicas também não 



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