06
como posso ainda não me ter esquecido
do teu nome e do teu número
um pássaro morto às voltas de uma árvore morta
como após tanta estrada perceber que parei tão aqui
o suor dos meus sonhos e os quilômetros em nada
estou tão perto de você agora que de repente desaprendo a falar
a amarrar as pernas a permanecer de pé
ainda nesta poeira deste encontro seco naquele estacionamento
daquele país assustadoramente outro como posso?
06
este número de telefone não existe
o dia não tem fim
comam-me os mosquitos
07
risco o nome de Hilda Hilst no rosto do tempo
o sol esquenta a tempestade
para à noite Ariana preparar os aromas
me sinto vivo mesmo é quando escrevo
secretamente corpos no verão
08
nem tudo está tão ruim aqui?
isto é tortura
estão cortando as linhas de contato
eu grito que te amo de dentro do meu travesseiro
a saudade é o deserto que cai da minha boca
você viaja para o teu novo país vizinho
sempre o mais longe que há de mim
09
estou tão sentimental
tenho crises de alergia
estou misturando as memórias
você viajar é mágica para minha imaginação
09
vou ao mercado pela manhã
escolho legumes para o almoço
me arrependo das sacolas
arrasto e arrisco a vida
tenho alguns amigos e um cachorro
vou parar de fumar
frequento os rituais as festas
dou abraços sambo e beijo
tenho vinte e três anos
não me vejo jovem
escrevo porque sou isto
perdi a mão para a prosa
para a conversa normal dos lugares
para dar a mão às pessoas
não sei como cumprimentá-las
camuflar-me na vida comum
os versos são para que não me vejam
os versos não são para nada
as músicas também não
segunda-feira, 6 de janeiro de 2020
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Sem ter um rei
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eu vi ali no chão da encruzilhada a voz brotar do vão iluminada eu vi ali no chão da encruza clara o sol da escuridão na minha cara a...
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